“TODO MUNDO ODEIA O CHRIS” = TODO MUNDO ODEIA OS NEGROS?

 

No Dia da Consciência Negra, uma reflexão sobre o poder da mídia na  construção de um imaginário negativo em relação à população negra.

 

A minha resposta é não, mas peço que avaliem comigo o poder da construção de posicionamento negativo dos negros na mente da sociedade, via meios de comunicação.

 

“Todo mundo odeia o Chris” é uma série televisiva da década de oitenta, que usarei para estabelecer uma analogia com a consideração da sociedade aos negros na atualidade.

 

Chris, um jovem anti-herói que convive com mais desatinos do que acertos, acaba sendo motivo de diversão para milhões de telespectadores dessa comédia dramática que, até hoje, mantém excelentes pontos de audiência e indicações a prêmios. Por que as pessoas precisam de odiáveis anti-heróis negros?

 

Hoje: em nosso país, por mais que os jovens negros se esforcem, tem que demonstrar, comprovar, suas intenções e ações. De nada adianta, por exemplo, cursar uma universidade de ponta porque ao exibir o certificado ainda duvidam da veracidade do mesmo.

 

Contratação às cegas surge como paliativo necessário  para facilitar o acesso ao trabalho , mas não podemos esquecer de todo o processo até a saída da empresa empregadora que deverá ser higienizado com o reconhecimento e tratamento dos vieses inconscientes.

 

O jovem negro não precisa justificar-se diante de um fato de agressão à pessoa, ao patrimônio privado ou publico, pois logo lhe é atribuída culpa e, sem julgamento, é agredido ou morre, sendo mais um número nas estatísticas.

 

Sua estética é questionada e ainda escuta recomendações de branqueamento para poder ser admitido em determinados ambientes, pois a aparência black não condiz com cargos e status social mais elevados.

 

Pense comigo: por que o ódio contra os negros? Será que todo mundo odeia o Chris?

 

O racismo estrutural é silencioso, pois o racista não se autodeclara. Ele age e causa dor social naqueles que são agredidos e que sofrerão essa dor durante toda a sua existência. Dor social não tem antídoto. Dor social pode ser silenciosa, comentada somente entre iguais, mas causa impacto a todos.

 

O ódio, a ridicularização e inaceitação ao negro são apenas a ponta de um iceberg.O que está submerso são os vieses inconscientes estruturados a partir de informações robustas, que construíram a imagem do negro sob a ótica equivocada de menor valor que o de outros seres humanos.

 

Lendo “Rastros de Resistência” de Alê Santos, que traz à tona fundamentos históricos, seculares,  que jamais ousaram nos contar na escola, entendemos o porque do ódio, construído.

 

Durante a minha vivência há décadas no ambiente corporativo e no voluntariado, várias vezes fui indagada sobre o que mais havia me marcado ao que respondi: foi o olhar enviesado.

 

Lembrando Milton Santos: “Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. Essa ambiguidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições”. Para mim, esse olhar enviesado representa medo, dúvida, e porta fechada às oportunidades.

 

Se a agressão é uma reação por medo, pergunto: medo de que?

 

De recuperarmos o talento submerso, afogado pelas mãos do preconceito, discriminação e racismo? Medo de retirar a venda dos olhos e encarar a questão que é de todos e não só dos negros?

 

A proporção de jovens de 18 a 24 anos pretos ou pardos no ensino superior passou de 50,5% em 2016 para 55,6% em 2018, segundo IBGE. Esses jovens logo estarão buscando colocação no mercado de trabalho 4.0. Vamos todos nos permitir olhar para o futuro que nos exige apresentar um legado livre dos ranços de um passado ainda presente.

 

O GLOBO / Divulgação

 

Mas, nem todos odeiam os negros. Em um país como o nosso com 57% de população negra, temos pessoas que tomaram a causa para si, compreendendo que a inclusão racial, com equidade, além de ser um princípio básico da humanização das relações é a peça que falta para equilibrar crescimento econômico com sustentabilidade.

 

Nessa vibe destaco um entre muitos que estão empreendendo ações verdadeiramente disruptivas. Falo de Theo van der Loo, um ícone da causa da equidade racial em nosso país, que tem seu lugar de fala reconhecido, demonstrando a importância da empatia das pessoas de todas as raças e etnias com as questões da raça negra.

 

Theo Van Der Loo – Ícone da causa da equidade racial no Brasil.

 

Assim sendo, “Nem todos odeiam Negros”.

 

Autora: Jorgete Lemos

Consultora Diretora Executiva da Jorgete Lemos Pesquisas & Serviços e Parceira da Eventos RH